Escolhendo as batalhas


Sabe, nunca tive paciência com gente cheia de restrições com alimentação.

Toda vez que via algum adulto, com o perdão da palavra, cheio de frescura pra comer me subia aquela raivinha. De modos que quando me tornei mãe podia saber poucas coisas na vida, mas uma delas é que eu não cederia a caprichos de filho com relação à comida. É claro que não demorou muito tempo pra que eu começasse a pagar a língua. Já comentei várias vezes o quanto tenho dificuldade na alimentação da Fernanda, o que me fez aprender algumas coisas na marra…


#Exemplo não é tudo

Aqui em casa não temos por hábito consumir refrigerante, junk food e porcarias em geral. Vez ou outra, acontece. Mas não é hábito. O hábito é termos comida saudável. Há quatro anos Fernanda nos vê nos alimentando desta forma mas isso não foi suficiente para fazer com que ela gostasse das coisas que comemos, ou pelo menos, não da forma que comemos. Então mesmo sabendo que exemplo é importante, aliás, é fundamental para formar hábitos saudáveis nos nossos filhos, exemplo nem sempre resolve a parada. 


#Existem fases – e elas passam


Já consegui me iludir algumas vezes achando que “agora vai, Nanda tá comendo super bem, finalmente consegui”. Assim como já me desesperei algumas vezes quando ela simplesmente se negava a comer. Tanto a fase do ~tá comendo direitinho~ quanto a fase do ~socorro, essa menina não come~ passaram. Saber disso ajuda a manter a calma ou não se empolgar demais. Com expectativas reais o coração de mãe sofre menos.


#Existem crianças que comem e crianças que não gostam de comer


Só descobri isso quando Daniel nasceu, já que a diferença entre um e outro é gritante. Desde a fase das papinhas sempre foi um sofrimento alimentar a mais velha. Desde a fase das papinhas me impressiono com o apetite do mais novo. Ele aceita tudo, prova tudo, tem curiosidade por todo tipo de alimento. É assim que ele é. Existem crianças que comem, e existem crianças que não gostam de comer – simples assim. E isso me leva ao próximo ponto.


#Respeitar os gostos não é ceder ao capricho

Existem alguns alimentos que Fernanda adora. Ela gosta muito de uva, por exemplo. De ameixa, castanhas e amêndoas. Queijo e tapioca. Ela adora chás gelados. E é incrível como ela é incapaz de comer um prato de arroz e feijão ao mesmo tempo em que devora um prato de sopa cheinho de legumes. Eu sempre quis que ela comesse de tudo, gostasse de tudo que colocamos à mesa, mas a verdade é que ela não gosta. Eu e o meu medo de ceder e fazer dela aquela adulta cheia de frescura que eu tinha raivinha me fizeram bater cabeça até hoje querendo obrigá-la a comer o que se põe na mesa. Sem segunda opção, sem cardápio alternativo. Mas a verdade é que minha filha é única e precisa ser respeitada com tal. Não vai ser a minha vontade que vai mudar o seu paladar. Comecei a me sentir mal por tentar formatá-la ao meu gosto, à minha vontade. Comecei a fazer sopinhas e mais sopinhas, cheias de nutrientes. Num dia de feijão, no outro de carne, no outro canja. Estão lá, todos os grupos: proteínas, carbos, vitaminas, fibras, lipídios, tudo o que ela precisa. E melhor ainda: do jeito que ela gosta. Não preciso bater tudo pra disfarçar o que tem na sopa, tá tudo ali, em pedaços mesmo, e ela adora. Ela ainda diz “mamãe, eu adoro legumes” ou “mamãe, coloca sopinha na minha lancheira pra eu levar pra escola amanhã?”. Como eu pude achar que estava fracassando? Ouvir de uma menina de quatro anos que ela adora legumes não pode ser um fracasso! 


#Escolha suas batalhas


O que é mais importante? Talvez a quantidade que oferecemos de comida seja maior do que a fome. Vale a pena comprar a briga do “só sai da mesa quando raspar o prato”? Às vezes é uma viagem em família, com a vovó e seus salgadinhos irresistíveis cheios de corante e sódio. Vale a pena estressar por uma semana se você sabe que quando voltar pra casa tudo voltará ao normal? Sabe, sentar à mesa e desfrutar de uma refeição é muito mais do que sentar à mesa e desfrutar de uma refeição. É encontro. É um momento diário onde podemos criar memórias afetivas que vão marcar nossos filhos por toda a vida. 

Algumas batalhas precisam ser compradas, lutadas até o sangue. Outras não valem a pena. Às vezes olhamos para os nossos filhos mas não os enxergamos. Vemos o que queremos que eles sejam, e isso é natural. Mas talvez se tentarmos enxergá-los, podemos nos surpreender e ver que eles estão saindo melhor que a encomenda. 

jantar de ontem